13 reason why e uma geração ansiosa e depressiva

Nos últimos dias, grande parte das mídias e dos blogs só tem falado em uma coisa: 13 reasons why. A nova série adolescente do Netflix dirigida pela cantora Selena Gomez, traz uma trama sobre uma menina chamada Hannah Baker que tirou sua vida e deixou fitas gravados com os 13 porques da sua triste escolha.

Se você ainda não viu, sugiro que leia esse post depois porque vai rolar uns spoilers!

A história é mais ou menos assim: Hannah era uma menina comum, bonita, inteligente e simpática. Após sua única amiga mudar de colégio, ela se vê sozinha e começa a busca por amigos na escola Liberty. O que ela não esperava é que uma série de acontecimentos viriam em decorrência de apenas uma escolha (escolha?) errada: sair com Justin, o garoto mais popular do colégio.

Após o encontro em um parquinho, o garoto mostra a seu amigo Bryce uma foto que tirou de Hannah quando ela descia o escorregador em que sem querer apareceu com as pernas abertas e a calcinha aparecendo. Como muitos adolescentes acham normal, Byrce enviou a foto para vários grupos de whatsap. O que era para ser um momento de descontração com o novo amor virou o início do pesadelo: Todos da escola já haviam visto e os boatos sobre Hannah já corriam soltos.

A partir daí a vida de Hannah começa a virar um inferno: Os caras se aproximam dela porque acham que ela é “fácil”. As “amigas” a julgam por sua fama e deixam de falar com ela. Entre uma série de agressões, bullying e até estupro, a menina começa a gravar uma série de fitas contando sobre cada pessoa que causou sofrimento e, indiretamente, sua morte.

Após gravar a décima segunda fita, Hannah resolve dar uma última chance a vida e procura por um adulto para ajudá-la, Mr Poter.  Foi entao que a gota d´agua acontece e o conselheiro sugere que ela havia “consentido” e que talvez deveria apenas “superar” o acontecimento. Tamanha negligência pode ate parecer  pequena a certos olhos porém, as gigantes aos de Hannah. Esta então, grava a décima terceira fita e corta os pulsos dentro da banheira de casa.

Apesar de eu achar que há uma romantização do suicídio, a série mostra exatamente como a maneira que tratamos os outros pode influenciá-los diretamente. Não temos noção mas, as vezes, uma pequena atitude que temos com o outro pode modificar o dia dele por completo, seja para o bem ou para o mal. Palavras tem poder de cortar e torturar assim como de curar e cicatrizar. Precisamos parar de machucar uns aos outros. Precisamos parar de querer que todos sintam a nossa dor. Só é cruel aquele que tem raiva dentro de si, e a raiva nada mais é que a tristeza disfarçada pelo ego. E aquele que não descobre o motivo da sua dor, só a distribui e perpetua.

E um dos lugares onde isso é visto escancaradamente é o tal  do “High School” ou ensino médio como a gente chama por aqui. Também não é para menos: Uma série de fatores são base para que tais comportamentos venham a tona. Para começar, adolescentes são seres que vivem em um limbo: Não são crianças, também não são adultos mas já se acham maduros e capazes de tomar suas próprias decisões (eu fui uma dessas e me achava A adulta).

Segundo, eles estão com os hormônios e as emoções a flor da pele, muitas vezes multiplicados devido ao uso contínuo da internet (a alta velocidade do mundo digital altera o ritmo ideal do nosso cérebro, fazendo com que flutuemos entre ansiedade e depressão). E ninguém os ensina como controlá-los.

O instagram ainda sugere inúmeras vidas aparentemente perfeitas, enquanto metade de nós se ilude achando que vai ser rico, viajar o mundo, ter o trabalho dos sonhos e encontrar o amor antes dos 30. E se frustra quando isso não acontece.

Os professores estão presos a um modelo antigo e falido de educação, onde é mais importante saber a fórmula de Bhaskára do que saber lidar as sua emoções e relacionar-se com os outros.

Os pais estão muito ocupados com o trabalho e acabam tendo conversas apenas superficiais com o filho, suprindo a carência emocional com presentes e mimos tentando compensar as horas perdidas.

O resultado dessa combinação é uma geração com sérios problemas emocionais, que não suporta (literalmente) a frustação e que está destinada a enfrentar ansiedade e depressão pelo resto da vida. Não digo que tudo isso seja uma regra. Há excessões porém, quem já passou pelo colégio sabe: Ali é uma selva. Não tem professor, não tem orientador, não tem pai nem nenhum adulto que consiga entender ou aliviar o que se passa na cabeça de um jovem que sofre bullying. As vezes a pessoa só quer sumir.

E falo isso porque eu mesma já passei por uma situação em que vi meu nome envolvido em boatos no estilo slut shaming, onde a verdade nunca é a história mais interessante. Nunca me esqueço do auge desse bullying, no dia em que eu jogava bola nas Olimpíadas e todas as meninas da outra sala começaram a gritar um no estádio o apelido horroroso que tinham inventado pra mim. Saí chorando, envergonhada e durante muito tempo aquilo ficou comigo. E o engraçado é que até hoje lembro especificamente das pessoas.

Porém, na minha época a gente não tinha smartphone então, as notícias não eram instantâneas e nem todo mundo se envolvia. Por mais que aquilo tenha acontecido, não há registros físicos e a nossa cabeça não era bombardeada com tantas informações como é hoje em dia. Era mais fácil de lidar. Atualmente as coisas são diferentes: Uma  bobeada e você pode cair na internet, onde pessoas até da China podem estar zoando de você. E as vezes, para uma adolescente, isso pode ser demais.

Cada um lidar com a dor da sua maneira. Até 2020, a ansiedade e a depressão serão as doenças mais comuns no mundo. Suicídio mata mais que HIV. Não sei se você sabe mas, no final de fevereiro foi divulgada uma pesquisa em que o Brasil é o país com maior índice de ansiedade, o segundo em depressão. Coincidentemente, nós também somos os que mais acessam a internet. Seria mesmo uma coincidência?

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